Especial Festa de Agosto: Há 51 anos, a Esquadrilha da Fumaça “cortava” o céu de Milagres

Esquadrilha da Fumaça é o nome popular do “Esquadrão de Demonstração Aérea” (EDA). Criado em 1952, a “Esquadrilha da...

Esquadrilha da Fumaça em Milagres
Apresentação da Esquadrilha da Fumaça em Milagres. Agosto de 1967.
Esquadrilha da Fumaça em Milagres
Apresentação da Esquadrilha da Fumaça em Milagres. Agosto de 1967.

Esquadrilha da Fumaça é o nome popular do “Esquadrão de Demonstração Aérea” (EDA). Criado em 1952, a “Esquadrilha da Fumaça”, é responsável pela divulgação da Força Aérea Brasileira (FAB) em território nacional e internacional. Sua sede se localiza na Academia da Força Aérea (AFA), na cidade de Pirassununga-SP.

As demonstrações de acrobacias aéreas da Esquadrilha são admiradas pelo Brasil e pelo mundo. São milhares de apresentações já realizadas ao longo de 66 anos.

Muitos milagrenses provavelmente não sabiam dessa informação, sobretudo os mais jovens, mas, nos anos 1960, a Esquadrilha da Fumaça, causou admiração e espanto em todos os munícipes, que testemunharam esse evento histórico, ainda “vivo” na memória do nosso povo.

[ads1] De acordo com o livro Nas Asas do Líder – Biografia Oficial do Coronel Braga  e o livro Memórias de um Fumaceiro do Coronel Wylton Silva, a apresentação realizada aqui em Milagres foi um desafio para os experientes pilotos.

A Esquadrilha da Fumaça estava com uma apresentação agendada para a cidade de Juazeiro do Norte, prevista para o dia 13 de agosto de 1967. Conforme os registros das obras consultadas, o prefeito de Milagres, aproveitando a estada da Fumaça na região, perguntou ao então Major Braga sobre a possibilidade de o grupo ir também a Milagres, que na ocasião festejava seu aniversário.

Em 1967, o prefeito de Milagres era o Senhor Elísio Leite de Araújo, conhecido pelo povo como “Seu Wilson”, de saudosa memória.

Conforme narrativa do Cel. Wylton Silva: Milagres era naquela época, uma pequena cidade. Um povoado com poucos habitantes, mas muita vontade de ver o show da Esquadrilha. Nosso Comandante aceitaria o convite, desde que o prefeito dissesse onde poderia pousar. O que se sabia é que Milagres não tinha aeródromo. Disse então o Braga: “Esta bem, prefeito, Milagres não tem campo de pouso, assim sendo, vamos pensar no que fazer”. Aquela altura dos acontecimentos, pelo entusiasmo do prefeito, “se virar” em campo de pouso era apenas um detalhe. E respondeu: “Deixa comigo…” O Braga tranquilizou-se, dada a sua grande experiência com fatos inusitados como aquele. Ele sabia que não haveria tempo hábil para a solução do problema, e a nossa previsão de volta seria no dia 15 de agosto. Assim sendo o prefeito partiu imediatamente para Milagres.

Coronel Braga
Líder dos pilotos que realizaram a apresentação em Milagres. Foto: nossaregiaoemfoco.blogspot.com

A demonstração em Juazeiro do Norte foi muito bem realizada. Missão cumprida, aviões estacionados enquanto a multidão permanecia em festa, uma pessoa se aproximou do Braga e lhe disse: “Comandante, o senhor prefeito de Milagres mandou dizer que Milagres já tem campo de pouso”.

Segue na íntegra a narrativa do Cel. Wylton Silva.

Foi quando pensamos: “Não é a toa que a cidade tem esse nome!” Era difícil acreditar! No entanto, pagamos pra ver e para lá decolamos. Ao chegarmos, e do alto ficamos atônitos com a preparação da festa por aquela pequenina cidade: muitas bandeiras, banda de música ao lado da igreja e muitos pescoços voltados pra cima.

Mas… E o campo? Onde estava? Ouvi uma voz pelo rádio: “Campo avistado” – era o Braga. Ou o que parecia ser um campo, informava nosso líder: “Lá na frente, no meio daquele mato”.

Chamar aquilo de campo de pouso era “forte demais”. Parecia mais uma trilha. OK – disse o Braga – vamos de cobrinha (um avião atrás do outro, separados por aproximadamente 50 m) fazer algumas evoluções acrobáticas sobre a cidade com passagens baixas, o Braga determinou: “Fiquem em cobrinha em volta da pista que eu vou tentar pousar.” Na verdade o prefeito havia aberto uma trilha com muita árvore em volta.

O ala 2, então Tenente Land, abusado como ele só, quebrou o silêncio do rádio: “Se o chefe pousar, qualquer um pousa.”  Acredito que o Braga não tenha ouvido, pois o Land continuou ainda na Esquadrilha ainda por muito tempo… Após seu pouso, Braga nos alertou pelo rádio que não havia sido mole e que tomássemos cuidado; quem conhece o T-6 (aeronave) sabe do que ele estava falando.

Portanto, toda cautela seria pouca. Na verdade, nós nos sentíamos como se fosse um final para um pouso em um porta-aviões. No entanto, na corrida do pouso, percebíamos a falta de um gancho que pudesse ajudar a parar o avião, a exemplo do que ocorre nos porta-aviões. Haja freio! Em pistas assim o T-6 se comporta como um “boi danado”. Mas Deus é brasileiro e voa na fumaça. Todos pousaram, e os aviões ficaram amontoados no final da pista – (pista?!?!?)

Saímos então por um caminho, esgueirando-nos por uma verdadeira “Caatinga”. Um atrás do outro, partimos em direção ao final da clareira à procura de alguém. E foi então que nos deparamos com um típico “cangaceiro” de rosto marcado, pele seca e enrugada, com a cabeça baixa, chapéu bola caído pra trás, jaqueta e calça de couro cru. Ele estava encostado em uma pequena arvore, apoiando-se em um só pé, e, com um canivete de lâmina gasta e enferrujada, cortava lascas de fumo de rolo…

Tivemos de passar bem perto dele, quando se pode observar que sua cara não era de bons amigos…

Pois, na chegada, quando o ultimo piloto passava por ele, ainda de cabeça baixa, balbuciou com a voz cavernosa: “Serviço de macho”…

A apresentação da Esquadrilha da Fumaça em Milagres foi um marco histórico para a cidade. A ousadia e o desejo do prefeito Wilson Leite em presentear a cidade com a melhor apresentação aérea do mundo, é motivo de registro para a posteridade. A perícia dos pilotos narradas nas obras consultadas revelam as dificuldades e os desafios enfrentados para proporcionar um espetáculo ainda não repetido em nossa terra. O receio e a surpresa dos pilotos com aquele “cangaceiro” que testemunhou o pouso das aeronaves no campo de aviação improvisado é um fato curioso e jocoso.

Aquele longínquo agosto de 1967, ainda permanece vivo na memória dos milagrenses que olharam deslumbrados para o alto para ver a Esquadrilha da Fumaça “cortar” o céu de Milagres.

Por Hivantuyl Rodrigues

 

Referências

http://www2.fab.mil.br

JESUS, Solange Galente de. Nas Asas do Líder: Biografia Oficial do Coronel Braga. EDIPUCRS. Porto alegre, 2015.

SILVA, Wilton. Memórias de um Fumaceiro e Outras Histórias. LUZES. Rio de Janeiro.

Imagem OKariri.com

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