Trânsito mata um jovem por dia no Ceará

Um verdadeiro milagre diferenciou os destinos de dois jovens cearenses no último dia 20. Glauberto Rogério de Oliveira, 21,...

De acordo com levantamento apresentado pelo Detran-CE, apenas nos dois primeiros meses deste ano foi registrado um total de 67 falecimentos de pessoas entre 15 e 24 anos de idade (FOTO: ALEX COSTA/DIÁRIO DO NORDESTE)
De acordo com levantamento apresentado pelo Detran-CE, apenas nos dois primeiros meses deste ano foi registrado um total de 67 falecimentos de pessoas entre 15 e 24 anos de idade (FOTO: ALEX COSTA/DIÁRIO DO NORDESTE)

Um verdadeiro milagre diferenciou os destinos de dois jovens cearenses no último dia 20. Glauberto Rogério de Oliveira, 21, e Antônio Domingos dos Santos, 23, foram vítimas de acidentes de moto quase no mesmo instante. O primeiro saiu com vida e está internado no Instituto José Frota (IJF), em Fortaleza. O segundo, não teve a mesma sorte, e faleceu no local do choque entre o veículo que pilotava e um carro que seguia na contramão.

Glauberto registrou no Facebook agradecimentos a Deus, enquanto os dados de Antônio entraram para os índices de acidentes fatais de transporte envolvendo a população juvenil entre 15 e 24 anos no Brasil. De acordo com dados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran/CE), a cada dia, um jovem perde a vida no trânsito do Estado. Em 2012, foram 471 acidentes fatais. Em 2011, 436 mortes, em igual período. Um aumento de 8%. Nos dois primeiros meses de 2013 – janeiro e fevereiro – foram 67 falecimentos de pessoas nessa faixa de idade.

Mortalidade

O Mapa da Violência, do Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos (Cebela), constata que em 21 anos a mortalidade juvenil em todo o País, tendo o transporte como principal vilão, cresceu 121,1%. Em dez anos, entre 2000 e 2011, o aumento foi de 47,5%.

A taxa de óbitos neste recorte da população é alarmante, diz o estudo. A cada 100 mil jovens, 27,7 morreram tendo o transporte como causa. “Há 21 anos, o trânsito liderava a mortalidade juvenil nos motivos externos. Hoje, os homicídios ocupam a primeira posição, mas não temos nada o que comemorar, pelo contrário”, avalia o autor do estudo, Júlio Waisefisz.

Do total de acidentes fatais, aponta o médico Line Jucá, a moto aparece em primeiro lugar. De acordo com ele, a facilidade em tirar Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e a falta de fiscalização acabam influenciando diretamente o aumento no número de mortes. O Instituto José Frota (IJF), informa ele, não possui estatística por faixa etária, no entanto, pela sua experiência no atendimento na traumatologia da instituição, acredita que pessoas entre 18 e 40 anos de idade são as principais vítimas.

Média

Os dados do hospital são assustadores: por dia, em 2013, a média de atendimentos a vítimas de acidentes de moto, no IJF, é de 29 pessoas. Por mês, a média, neste ano, é de 886 pessoas acidentadas com motos. “É preciso fazer alguma coisa. Não podemos apenas ficar contabilizando números”, frisa Jucá.

Já o comandante da Polícia Rodoviária Estadual (PRE), coronel Túlio Studart, aponta motociclistas sem capacete e condutores sem habilitação. Esta combinação de infrações, dentre outras, mostra-se fatal em mais de 90% dos acidentes ocorridos nas estradas do Estado do Ceará.

Para ele, mais de 90% dos casos de acidentes no Brasil decorrem de falha humana, imprudência, negligência e imperícia. “E no Ceará, os números comprovam que a negligência dos motoristas é a principal responsável pelas vidas que são perdidas em acidentes nas rodovias estaduais”, avalia.

Vítimas

De acordo com a base de dados da PRE, de janeiro a abril de 2013, 95,24% das vítimas que morreram em acidentes com motocicletas não usavam capacete. Ao todo, foram 63 mortes, das quais 60 vítimas não utilizavam o equipamento. Um total de 381 pessoas ficou ferida em acidentes envolvendo estes veículos, aponta o levantamento.

Já 9,99% dos acidentes registrados pela PRE envolveram condutores não habilitados guiando motos, carros e outros veículos. Em 1.191 ocorrências, 693 pessoas ficaram feridas. “O que demonstra o tamanho do absurdo”, ressalta.

O sociólogo Eduardo Biavati, que é especialista em trânsito e consultor do Detran no Estado do Rio Grande do Sul, avalia a relação direta entre as tragédias no trânsito e a Previdência Social. Para ele, a pergunta é: “o que cada um de nós tem a ver com o ´fulaninho´ que tomba no trânsito? E eu digo: tudo”, ressalta. Porque a tragédia do trânsito, analisa o especialista, tem uma idade para acontecer, e ela acontece justo na entrada da adolescência e início da vida adulta. “Só que esse adulto jovem vai fazer falta lá na frente. Porque nascem cada vez menos crianças”, acrescenta.

Diário do Nordeste

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