AuroraCaririDestaquesÚltimas Notícias

Morte de “Mártir Francisca”, em Aurora, completa 62 anos. Conheça a história.

Uma das regiões cearenses com os mais altos índices de violência contra a mulher, o Cariri acumula história de “martírios” no imaginário popular. Outras crianças e jovens vítimas violência também foram aclamadas “santas”.

Capelinha erguida pelo pai da Mártir Francisca. Foto: Antônio Rodrigues

Na tarde de 9 de fevereiro de 1958, a jovem Francisca Augusto da Silva, de 16 anos, era morta pelo seu ex-noivo, o agricultor Francisco Ferreira Barnabé, o “Chico Belo”. Antes de desferir 13 golpes de peixeira contra a menina, sentenciou: “Se não vai casar comigo, também não se casará com ninguém!”. Anos depois, onde o corpo da moça tombou, na zona-rural de Aurora, se tornou local de culto à memória da Mártir Francisca, santa a quem o número crescente de devotos recorreu.

A história dela é semelhante à de outras meninas, vítimas em crimes hoje tipificados como feminicídios, como a da menina Benigna Cardoso, de Santana do Cariri, que no dia 21 de outubro se tornará a primeira beata cearense.

TRAJETÓRIA

Após sua morte de Francisca, toda família deixou Aurora, exceto sua irmã Maria Júlia Ferreira, dois anos mais velha, que está com 80 anos. “A gente era amigo demais. Irmãos unidos, nunca brigamos. A gente não esquece, não”, conta.

Francisca conheceu Chico Belo e namorou com ele por 10 meses, antes de noivar. Júlia também ficou noiva na mesma época. Contudo, seu pai impediu que a filha mais nova se casasse, pois, não tinha condições de fazer dois casamentos num ano só. Ao ouvir aquilo, o agricultor não quis manter o compromisso. “Se for pra ser assim, me dê minha aliança”, esbravejou.

Porém, Chico se arrependeu. A adolescente, contudo, não queria reatar. “Ela tinha medo dele”, lembra a aposentada. Oito meses após o noivado, ele continuava atormentando a família da ex-noiva. No dia anterior ao assassinato de Francisca, visitou Júlia, recém-casada. “Você tá bom de esquecer ela”, advertiu durante o encontro.

No dia do crime, as duas irmãs foram juntas à missa. Na volta, pegaram caminhos distintos. “Ela seguiu pela Aurora Velha e eu pela linha do trem”, lembra.

Mesmo com a estrada “assim de gente” voltando a pé da missa, por volta das 14 horas, Chico não se intimidou. Montado a cavalo, igualou a passada de Francisca e dos seus dois irmãos mais novos, de 15 e 13 anos que a acompanhavam. No primeiro golpe, deixou parte do intestino da moça exposta. Mesmo cambaleando, a menina ainda chegou até um pé de pereiro. Ao perceber que ainda estava viva, desferiu mais três facadas. Ninguém o impediu.

Chico tentou fugir de Aurora, mas a Polícia o encontrou. Foi julgado e condenado a 24 anos de prisão, em Fortaleza, cumpriu 19 anos e voltou a morar em Aurora. Pouco tempo depois, foi assassinado com seis tiros. Na época, o delegado descartou vingança, já que os familiares de Francisca, com exceção de Júlia, deixaram o município.

SANTIDADE

A morte brutal da adolescente comoveu a comunidade. Velas foram acendidas debaixo daquele pé de pereiro. Seu pai, antes de deixar Aurora e se mudar com toda família para Assaré por causa da tristeza, deixou uma pequena capela no mesmo local. Pouco tempo depois, surgiram relatos de curas e outros milagres atribuídos à moça, que depois foi aclamada Mártir Francisca.

Seu túmulo, no Cemitério de Aurora, recebe algumas visitas que acendem velas e deixam flores, porém, é a capelinha erguida pelo pai há mais de 60 anos, que se tornou centro de devoção. O monumento é mantido pela comunidade que, após 30 anos do assassinato, ergueu uma capela maior para Nossa Senhora dos Milagres, em referência às “obras” da santa popular.

No monumento menor, há incontáveis ex-votos. A maioria das peças foi feita pelo artesão Francisco Gildamir de Sousa das Chagas, o Mestre Gil, nomeado Tesouro Vivo da Cultura cearense. “Eu me considero escultor e devo isso a Mártir Francisca. Comecei fazendo pé, mão, olho. Ela morreu em 1958, ano que nasci. Pra você ver: nessa época já começou a obrar milagre”, acredita.

No dia 9 de cada mês, há uma celebração em memória da jovem. “O pessoal vem de carro, acende vela, deixa promessas”, conta o agricultor José Ferreira Brito, sobrinho de Mártir Francisca, que ajuda a administrar as duas capelas.

O jornalista e pesquisador Dellano Rios ressalta que a santidade popular não é um universo tão distante da santidade da Igreja. “Há incontáveis santos da hierarquia oficial. Muitas dessas devoções surgiram do meio popular, e só depois foram reconhecidas pela Igreja”.

Rios acredita que o próprio nome “Mártir”, no lugar de chamá-la de “Santa” burla certas regras da Igreja, “Mas ela não é colocada em oposição aos outros (santos). O sentimento religioso é o mesmo: a pessoa sente o chamamento do santo para pedir e segue o rito”, explica.

Por: Diário do Nordeste

Etiquetas
Ver Mais

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo
error: Está protegido !!
Fechar