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Após aprovação em dois mestrados na Espanha, indígena cearense organiza vaquinha para custear viagem

Residente na reserva indígena Taba dos Anacé, em Caucaia, Rute Morais, de 22 anos, é a primeira indígena brasileira a ser aprovada nos mestrados em Antropologia Social e Estudos Latino-americanos na Universidade de Salamanca (USAL), na Espanha. Após a confirmação de aceitação, no último dia 26 de junho, e sem bolsa, a indígena do povo Anacé abriu uma vaquinha online para conseguir ajuda com as despesas da viagem.

Rute mora na reserva indígena Taba dos Anacé, em Caucaia. — Foto: Arquivo pessoal

Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) no ano passado, Rute iniciou a jornada de estudos em 2015, abrindo o caminho para que muitos outros indígenas pudessem seguir seus passos no espaço acadêmico. “Independente de ser indígena ou não, a gente pode estar onde quiser”, declara.

Nesse processo, iniciado com a saída de casa aos 17 anos, o suporte da comunidade, ela compartilha, foi essencial. Com respeito às origens e com desejo de voltar, dando retorno com o conhecimento adquirido no ambiente acadêmico, vê sua felicidade ser compartilhada com familiares e os integrantes da comunidade. “Eles falam que eu vou voar, que estão contribuindo e me apoiam nesse processo. Acho que é uma conquista não só para mim, mas para todo o povo Anacé”.

“Eu acho que está sendo um momento de descolonizar, desconstruir a ideia de que o indígena é inferior e afirmar que o indígena pode estar no espaço que ele quiser. Que nós também produzimos conhecimento”, compartilha a futura mestranda em Antropologia.

Pesquisa

A pesquisa de graduação de Rute focou nas violações ocorrida com os Anacés e seus territórios, buscando equilibrar o mundo científico e a base cultural tradicional de seu povo. “Falava sobre os processos vividos, de como as mudanças impactam os idosos e jovens”, comenta. No mestrado, irá ampliar ainda mais essa linha de estudo.

Para a mãe, a secretária escolar Angela Maria Moraes, 52 anos, com atuação na escola indígena, o registro acadêmico realizado pela filha tem forte importância histórica.

“Eu posso morrer, mas isso vai ficar nos livros para as próximas gerações estudarem. Isso faz o povo indígena se reerguer e continuar na luta. Tem que ter coragem de enfrentar, de estar dizendo, de cabeça erguida”, compartilha Rute.

Resistência

A permanência na universidade foi uma dificuldade muito grande para Rute. “A gente tem que entender que não é fácil, ela foi muito guerreira”, aponta a mãe. Para além dos desafios econômicos, ela precisou enfrentar professores que não acreditavam em sua capacidade de se formar.

“Eu recebia muitas críticas, dizendo que esse ‘espaço não era para você’. Permanecer em um espaço que não é construído para indígenas é difícil, você tem que estar constantemente reafirmando sua identidade”, comenta.

A ausência de políticas públicas e de acolhimento para estudantes indígenas foi um dos pontos negativos percebidos por Rute. Apesar disso, a jovem se articulou dentro da universidade com outros estudantes de comunidades indígenas diferentes, promovendo autoacolhimento. “Esse espaço também é nosso e a gente tem que ocupar”, ensina.

Vaquinha

Para conseguir custear as despesas da viagem para a Espanha, Rute organizou a vaquinha online. “Cada doação vai me ajudar a realizar esse grande sonho”, compartilha.

Para contribuir, é possível entrar em contato com a estudante através do Instagram @rute_indiaanace ou doar aqui.

Por G1-Ce.

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