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“Ô cabaré de Chica!”: o cotidiano e as ideias de uma mulher negra da cidade de Milagres-CE na segunda metade do Século XX

            Ao testemunharmos o lugar de fala de cada pessoa teremos relativo acesso as suas subjetividades e emoções, temos também acesso aos seus sonhos, as suas ideias e suas vivências. Quando essa pessoa que se coloca para nós é uma mulher e esta que nos fala é uma mulher negra somos imediatamente jogados diante de uma realidade na maioria das vezes cruel e opressora.

Dona Chica de Lissim chegando da roça (Foto do autor)

            O Brasil é um país negro e é um país negro porque 54% de sua população é negra, também é negro porque sua história e suas identidades são negras. Populações inteiras foram sequestradas, traficadas e escravizadas ao longo de trezentos anos no nosso território. Quando finalmente a população negra conquistou através de suas lutas a liberdade de ir e vir e de vender sua força de trabalho, foi traída pelo estado que a marginalizou transformando-a em cidadãos de segunda classe iniciando imediatamente após o dia 13 de maio de 1888 uma política de extermínio da população negra e de embranquecimento do país.

            O racismo estrutural se impôs como instrumento de dominação política, econômica e cultural da branquitude. Homens e mulheres negros tiveram seus corpos violentados, suas memórias e sua história apagadas para que a política de embranquecimento do Brasil se efetivasse até a alvorada do século XXI.

            Felizmente os ideólogos racistas que desejavam embranquecer o país exterminando negros e negras, violentando os corpos negros e soterrando as memórias e a história negra erraram. Defendiam eles que no Brasil não haveria mais negros no início do século XXI, hoje nós somos 112.000.000 de brasileiros, somos a maioria da população deste país, mas isto não quer dizer que a violência perpetrada contra nossos corpos, nossas falas, nossa ancestralidade, nossa cultura, nossas vidas tenha cessado. O racismo impõe a cada um de nós negros um estigma e uma forma de vida marginal, mas mesmo assim continuamos resistindo e nossas lutas contra o racismo impõe-se como força política importante para catalisar mudanças essenciais dentro do jogo democrático.

            Não importa o lugar do Brasil em que estejamos o racismo sempre atingirá homens e mulheres negros causando a destruição de suas vidas. Milagres é a cidade do Cariri cearense cuja população é majoritariamente negra. Segundo o censo de 2010 em trono de 73,9% autodeclaram-se negros no município, isso sem dúvida é surpreendente, mesmo assim esta cidade de maioria negra é uma cidade segregada e racista.

            Já na metade da Rua João Fechine reside uma senhora de 70 anos de idade, uma senhora negra, sua história e seu lugar de fala ressoa as histórias e as falas das inúmeras mulheres negras brasileiras e dos milhares de mulheres negras milagrenses que tiveram e têm seus corpos violentados, suas vidas negras estigmatizadas, suas emoções e sonhos negados, sua cidadania recusada.

            Esta mulher foi violentada sexualmente aos 13 anos de idade, o pai a expulsou de casa porque segundo o regime moral da família que vivia nas terras do patrão cujo filho a violentou ela era uma perdida e não podia viver mais no seio da família envergonhada de ter uma moça perdida em casa.

            Esta menina de 13 anos expulsa de casa morava no Distrito de Missão Nova município de Missão Velha, sem o apoio da mãe e do pai, estes também reféns dos latifundiários aos quais deviam favores e para quem precisavam trabalhar em regime semiescravidão, (isto na década de 1940) tiveram que largar sua filha no mundo por exigência do patrão, pois a moça perdida seria mal exemplo para as outras da fazenda.

Dona Chica de Lissim em sua casa na Rua João Fechine (Foto do autor)

            A menina integrou-se a um circo que a trouxe até as margens da BR-116, no município de Milagres, pretendia ela seguir viagem com o circo para o Estado da Paraíba, mas um homem da cidade a encontrou e gostou da moça pretinha, jovem de 13 anos e “perdida”. Este homem a conduziu a um bordel local para compor com outras moças a prata da casa, era o Cabaré de Luzia Braúna.

            A menina compreendeu muito rapidamente que aquela seria a sua nova vida, seria prostituída, serviria a quantos homens? Negra, adolescente e bela, a menina foi reservada para este, ele teria direito exclusivo sobre ela, protegeu-a este homem, fez-se amante da negra, a esposa deste homem aprendeu a conviver com a comborça, a negra ganhou fama de mulher boa, de mulher da vida respeitável.

            Sob a proteção deste homem ganhou o nome com o qual ficou conhecida no cotidiano da cidade de Milagres, Chica de Lissim. Sim, é desta senhora que estamos falando, mulher negra cujo lugar de fala remete ao lugar de fala as vidas violentadas de tantas mulheres negras de nosso Brasil. O lugar de fala de Dona Chica de Lissim faz emergir nas suas narrativas sobre sua vida, as violências sobre os corpos femininos negros em Milagres da segunda metade do século XX.

            As memórias de Dona Chica de Lissim são minuciosas e descrevem um cotidiano de segregação racista em Milagres. Vivendo sempre na periferia da zona urbana da cidade, ela vivenciou as perseguições e políticas racistas impostas a população negra de Milagres que sempre viveu marginalizada na Rua dos Ossos, na Rua do Lajeiro, no Alto do Tabuleiro, no Curral da Igreja.

            Ouvi-la é estar em contato com a mulher que ao longo de sessenta anos vivenciou as tragédias da população pobre, negra, marginalizada de Milagres, ouvi-la é ter diante de si o testemunho da mulher que viveu e enfrentou a violência imposta contra as mulheres e principalmente as mulheres negras de Milagres. Lembra-me aqui uma das suas falas, onde ela conta que uma mulher grávida fora esfaqueada pelo marido num bar da periferia e que as mulheres presentes tiveram de socorrê-la. Outra mulher negra que se recusara a dançar com um dos pelintras da elite da branquitude milagrense e foi estuprada por ele seus amigos nos matos do tabuleiro e que ela abrigou e dela cuidou dentro de sua casa.

            Histórias de mulheres negras, de meninas expulsas de suas casas por não terem conservado sua virgindade até o casamento e que foram estigmatizadas pela sociedade local e por suas famílias e que ela as acolheu servindo-lhes como guardiã e protetora, encontrando para elas depois maridos ou companheiros que as pudesse tirar da ‘vida do cabaré’.

            A história dessa mulher negra que sofreu a violência e que testemunhou a violência, que fez-se de refrigério e alento para outras mulheres negras e tantas outras mulheres violentadas e marginalizadas do município é um capítulo da história de Milagres na segunda metade do século XX. Dona Chica de Lissim é a história do povo negro sem cidadania e marginalizado pela branquitude milagrense ao longo da história desta cidade, suas memórias, são as memórias da violência que se abateu sobre as mulheres negras de Milagres e do Brasil.

            Suas táticas de resistência contra essa violência, a marginalização e ao racismo em Milagres é sua experiência história, seus regimes de historicidade, Dona Chica de Lissim é a história da mulher em Milagres na segunda metade do século, que seu corpo violentado aos 13 anos seja uma bandeira de luta contra toda violência que o patriarcado, a misoginia e o machismo exerce sobre os corpos femininos, que sua coragem ao enfrentar sozinha o mundo e disputar espaço com a branquitude milagrense ao longo de seis décadas de resistência negra e feminina sirva para conduzir nossa luta contra o racismo e o extermínio do povo negro, dos pretos brasileiros.

Encontro do pesquisador Carlos César com Dona Chica de Lissim (Foto do autor)

            Ao disputar espaço com a branquitude e impor seu nome de mulher negra nas falas das cozinhas, quintais e palestras da suposta elite milagrense Dona Chica de Lissim nos mostra que as formas de ataque ao racismo estrutural é possível através de táticas e estratégias múltiplas e que o corpo feminino e que o corpo feminino negro também é uma bandeira e um ataque contra os racistas brasileiros.

*Por: Carlos César Pereira de Sousa, professor da Escola Dona Antônia Lindalva de Morais e Mestre em História.

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