O tempo amanheceu nublado, o sol se escondeu e a chuva, enfim, trouxe água para minimizar o calor e a sequidão em Fortaleza. Mas essa chuvarada de 19,6 milímetros, durante toda a manhã de ontem, também gerou transtornos: alagamentos, trânsito parado, árvores caídas e casas com riscos de desabamentos. Para quem gosta desse “climinha”, a boa notícia é que, segundo o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), há 60% de chances do céu se manter sereno até o próximo dia 22.
A bancária Fátima Cruz, 38, nem imaginava que o clima fosse virar assim, tão depressa. Foi pega desprevenida, sem guarda-chuva na mão. Chegou no trabalho molhada, pés sujos de lama e perdeu o dobro do tempo na viagem de ônibus até o Centro. “Cidade parece que é feita de açúcar, não aguenta água, vira um caos quando cai uma chuvinha de nada. Bagunçou a vida”.
E não faltaram pontos de congestionamentos. A chuvarada que começou por volta de 10h se arrastou até o começo da tarde. A Autarquia Municipal de Trânsito (AMC) registrou pontos de alagamento na Avenida dos Expedicionários, Rua Dona Leopoldina e até na Santos Dumont.
Ainda conforme o monitoramento da AMC, também foram identificados vários engarrafamentos entre às 11h30 e 15h. Os principais locais foram na Avenida Júlio Abreu, embaixo do viaduto da Via Expressa, Abolição, Rua Júlio Azevedo, Santos Dumont e Avenida Heráclito Graça.
Se já não bastassem as enormes filas de carros parados, ônibus lotados e muitos pedestres esperando uma vaga nas paradas, 17 semáforos ficaram sem funcionar entre 7h30 e 14h30 e pelos menos 14 colisões foram registradas. Um dia de caos.
Problemas
A chuva parou a cidade. Na rotatória da Avenida Aguanambi, por exemplo, o trânsito ficou totalmente saturado. No Centro da cidade, perto da Catedral, as calçadas ficaram tomadas pela água; carros e pedestres disputavam o mesmo espaço. Comerciantes tiveram vendas ruins. “A chuva começou muito rápido. Nem parecia que ia ser tão forte. Estava até desacostumado”, diz o gráfico Fernandes Lima, 41.
Em uma volta pela Capital, percebemos também congestionamentos na Rua Carlos Vasconcelos, na Rua Antônio Pompeu, na Avenida Mozart Lucena, no Quintino Cunha e na Coronel de Carvalho, no Jardim Iracema.
Sobrou até para a recém reformada Câmara Municipal de Fortaleza que sofreu com diversos alagamentos e goteiras por todo o plenário e algumas galerias. O Riacho Maceió transbordou e não faltaram bocas de esgoto estouradas nas vias litorâneas.
Para a meteorologista da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), Dayse Moraes, esse evento foi considerado normal, dentro da média, e um fenômeno típico da abertura da quadra chuvosa.
“A tendência é que essas ondas da Zona de Convergência Intertropical fiquem por mais 72 horas no Ceará”, detalha.
Tempo fechado
O céu de Fortaleza esteve nublado durante boa parte do dia de ontem. De acordo com o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (Cptec), há 60% de chances de o clima se manter sereno até o próximo dia 22. No entanto, a chuva também trouxe problemas à população, como engarrafamentos, árvores caídas e riscos de desabamento. Segundo a Defesa Civil, foram registradas 38 ocorrências na cidade nesta sexta-feira, entre 6h e 15h, a maioria delas alagamentos.
Evento típico
Conforme a meteorologista da Funceme, Dayse Moraes, o fenômeno foi considerado normal, dentro da média. Com a precipitação intensa, dejetos ficaram à vista nas águas do mar de Fortaleza.
Alagamentos
Nas vias litorâneas, como a Beira-Mar, não faltaram bocas de esgoto estouradas e ruas ficaram alagadas. Houve 14 colisões e 17 semáforos pararam de funcionar entre 7h30 e 14h30.
Caos no trânsito
Houve engarrafamentos em várias vias, principalmente na Av. Júlio Abreu, embaixo do viaduto da Via Expressa, Abolição, Rua Júlio Azevedo, Santos Dumont e Heráclito Graça.
20 casebres são inundados na periferia
“Oh! Senhor, eu pedi para o sol se esconder um pouquinho. Pedi pra chover, mas chover de mansinho”. A canção “Súplica Cearense” é a poesia que melhor retrata a vida da dona de casa, Luzinete Honorato, 46. A chuva de ontem trouxe medo, pânico. O casebre dela e de outras 19 famílias, todas moradoras da Rua Pedro Augusto, às margens do Canal Dom Lustosa, no bairro Antônio Bezerra, foi alagado ontem. A água subiu mais de um metro, molhou tudo, estragou roupas móveis e comidas. Só restou o temor da morte, do afogamento.
“Todo ano é a mesma coisa. Eu não tenho mais nada em casa. Só uma rede velha para dormir e uns panos. Tudo a enchente levou embora”, afirma a senhora. E o risco só aumenta, o céu nublado é sinal de mais temporal e de noites mal dormidas.
Pânico
Além da invasão das águas, uma ponte de acesso à travessa foi totalmente destruída, levada pela força da enxurrada e um cano quebrou. Apenas uma cerca de madeira bem fina e alguns matos servem de contenção para o canal que sobe a cada minuto.
“Estamos todos assustados. Nossa vida está por um fio e não temos dinheiro para alugar uma casa em outro lugar. O pior foi que a Defesa Civil esteve aqui e disse que não há projeto nenhum para a urbanização dessa área”, conta Carleano Alves, 23.
O que mais preocupa a dona de casa Rosiane Honorato Francelino, 19, habitante de um casebre na beira do canal, é a vida da filha, Kauane, de apenas 1 ano.
“Quando a água subir com força, tenho medo de não dar tempo de salvar minha filha. Pode até ter desgraça aqui. Precisamos de ajuda urgente”, detalha.
Conforme a Defesa Civil de Fortaleza, foram registrados, ontem, entre 6h e 15h, 38 ocorrências, a maioria delas de alagamentos. Apenas uma foi de desabamento na Barra do Ceará, onde parte do telhado do prédio onde funcionava uma igreja desabou. Segundo a Prefeitura, ninguém ficou ferido e o templo não foi interditado. Foram, conforme o coordenador da Defesa Civil, Cristiano Férrer, diversas inundações em Fortaleza, centralizadas nas Regionais III e VI.
Canal
“Apesar disso, foram ocorrências apenas pontuais sem muita gravidade. Não tivemos que fazer a remoção de nenhuma família e realizamos, durante todo o dia, visitas de monitoramento inclusive na comunidade do canal da Dom Lustosa”, explica Férrer.
Questionado sobre ações preventivas, ele se restringiu em falar apenas das limpezas de rios e de canais que já se iniciaram desde o último dia 9 na Capital.
“Estamos fazendo também ações preventivas, sim. Temos hoje equipes 24 horas de plantão para atender todas as demandas. Existem cerca de seis equipes trabalhando em todas as regionais da cidade. É só a população acessar”, afirma o coordenador. As ocorrências devem ser feitas através do disque 190.
Diário do Nordeste





