FORTALEZA: Após 5 anos, Ronda do Quarteirão frustra e não reduz os crimes

O tema violência está na boca da população. Não há quem não reclame da insegurança e, por consequência, da...

O assassinato de Bruce Cristian, 2010, chocou a população (Foto: Viviane Pinheiro/Diário do Nordeste)
O assassinato de Bruce Cristian, 2010, chocou a população (Foto: Viviane Pinheiro/Diário do Nordeste)

O tema violência está na boca da população. Não há quem não reclame da insegurança e, por consequência, da falta de proatividade de um dos mais famosos (e também polêmicos) programas, o Ronda do Quarteirão. Completando cinco anos de implantação em fevereiro de 2013, os questionamentos seguem: qual o futuro do Ronda e como ele pode ajudar na paz social?

O desafio é tamanho. Prova disso são as crescentes estatísticas. Segundo a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), os casos de homicídios dolosos (quando há intenção de matar) aumentaram, por exemplo, em 33% entre os anos de 2011 e 2012, passando de 2.667 para 3.571 assassinatos. Movimento bem semelhante são os gastos com segurança pública. Em 2011, a verba ficou em R$ 964 milhões (4,88% do orçamento) e, em 2012, passou para R$1,4 bilhão, 7,51% do total.

Desde o início, o programa foi alvo de críticas: ora pelo alto valor dos veículos “Hilux”, ora pelo fardamento de luxo, curto tempo de formação e os tantos outros tropeços. Durante o primeiro ano, o programa correu às mil maravilhas: os carros circulavam por toda a Capital satisfazendo a população. Já a partir de 2009, acidentes começaram a ganhar destaque e gerar questionamentos. Ações desastrosas e crises se aprofundaram.

Denúncias corriam mundo à fora. Desgastes. Hoje, com o descontrole da violência, até o próprio comandante geral da Polícia Militar do Ceará (PM-CE), Coronel Werisleik Matias, assume as fragilidades e ressalta que ainda há muito o que enfrentar.

“Temos que avançar sim, principalmente no princípio basilar do Ronda, das visitas comunitárias. Esse aperfeiçoamento ainda não chegou no ponto que a gente espera por causa da própria população que é resistente ainda em colaborar”, afirma o coronel.

Para ele, a parceria com a comunidade está cada vez mais complicada por conta do tráfico de drogas, por exemplo. A população teme passar informações e receber os policiais. Assim, a característica máxima – de aproximação – vai se perdendo. Prevalece, então, a ação ostensiva em detrimento à comunitária. “Muitos contestam o Ronda, mas triste hoje da cidade sem eles”, afirma o coronel da PM.

Os principais desafios postos para 2013, segundo Werisleik Matias, são o aperfeiçoamento do projeto, a melhoria do treinamento e da capacidade de mediar os mil conflitos sociais.

A dona de casa, Fátima Lima, moradora do Lagamar, em Fortaleza, confessa não ter mais confiança no grupamento. Para ela, o programa se perdeu no tempo e no espaço. “Com a bandidagem profissional, não há Ronda que resolva. Eles não conseguem combater a violência, ficam só parados em frente às lanchonetes e metidos em encrencas”, relata Fátima.

Para o policial Fernando (nome fictício), o momento deve ser de reformulação, de mudanças radicais. “O Ronda não deve ser mais o único programa de segurança. Cuidar da violência não é só repressão, mas sim garantia de direitos sociais e dignidade”.

“A cada dia, o Ronda se afasta dos objetivos”

A novidade mexeu mesmo com toda a Capital. Toda hora aparecia, em 2008, aquela ´Hilux´ rondando pelo bairro. “Isso dava uma sensação boa de segurança. A gente até parecia rico com policial na porta nos protegendo”, relata a costureira Maria José de Freitas, 67, moradora da Serrinha. Ela sente falta das viaturas do Ronda do Quarteirão, diz que agora, sem a presença tão ostensiva deles, a violência e o tráfico estão tomando conta de tudo.

E não é só ela que critica, com pesar, essa mudança do agrupamento. Para o atual coordenador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV), César Barreira, o Ronda está perdido, “a cada dia se afastando mais dos objetivos iniciais de polícia de aproximação”. No primeiro momento, ainda em 2008, aumentou a sensação de segurança. Depois, foi se confundindo com os próprios agrupamentos ostensivos.

“Ronda deveria dar respostas ao grande investimento que o Estado fez. Isso não está acontecendo e quem perde mais é a população que deixa de ter uma polícia de proximidade, de proatividade e preventiva”, conclui.

As potencialidades do Ronda (maior contato com a população e o caráter preventivo) estariam se dissipando e a culpa seria de diversas alterações nos comandos da Polícia Militar. “Mudaram gestores e pessoas que entraram no lugar não levaram em frente as ideias do início”, diz.

Violência

Além de questões políticas, a rotina de violência crescente – na Capital e no Interior – também interferiu, avalia. Para o coordenador, o tráfico, por exemplo, acabou forçando grave mudança de perfil. Segundo ele, a população temerosa começou a fazer cobranças e a não querer mais uma “polícia tão amiguinha”, queria uma forma mais agressiva. “Isso forçou a barra. Ao invés de levar a uma melhor política, levou a uma pior”, critica.

Para Barreira, a criminalidade está cada vez mais complexa e tem exigido formação mais ampla. “Não podemos mais ter Ronda despreparado para lidar com problemas sociais”, finaliza. Pesquisa feito pelo Governo em 2009 apontou que 83% dos entrevistados aprovavam a ação.

Diário do Nordeste

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