MERUOCA: Candidato apoiado por cassado vence 1ª eleição causada por Ficha Limpa

Os eleitores de Meruoca, a 277,3 km de Fortaleza, na Região Norte, voltaram ontem às urnas e elegeram Manuel...

Aristides, de amarelo, foi eleito com bênçãos do cassado João Coutinho, de branco à direita. À esquerda, de azul, está o vice, Rubens Lima (Foto: Edimar Soares/O Povo)
Aristides, de amarelo, foi eleito com bênçãos do cassado João Coutinho, de branco à direita. À esquerda, de azul, está o vice, Rubens Lima (Foto: Edimar Soares/O Povo)

Os eleitores de Meruoca, a 277,3 km de Fortaleza, na Região Norte, voltaram ontem às urnas e elegeram Manuel Costa Gomes (PT) – conhecido como Aristides – como prefeito do Município. Na primeira eleição do Estado provocada pela lei da Ficha Limpa, a população optou pelo candidato apoiado pelo ex-prefeito cassado, João Coutinho (PT) – justamente aquele cujo indeferimento na eleição de outubro passado provocou o pleito de ontem.

Costurado com participação direta do governador Cid Gomes (PSB), amplo acordo entre antigos adversários políticos da região, com divisão de cargos nas secretarias, garantiu vitória folgada do petista sobre George Martins (PHS), candidato da oposição.

Aristides recebeu 4.752 votos (64,04% dos válidos) contra 2.668 (35,96%) sufrágios do opositor. A eleição ocorreu porque João Coutinho, vitorioso no pleito do ano passado, teve registro indeferido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por se enquadrar na lei da Ficha Limpa. Coutinho – prefeito de Meruoca entre 2000 e 2008 – teve contas de gestão desaprovadas pela Câmara do Município em 2006.

Partilha de cargos
A eleição de ontem foi marcada por acordo firmado entre Aristides e Herik Zednik (PRB). Opositora histórica do PT na região, ela acabou saindo em chapa com o prefeito eleito após acerto articulado pelo governador Cid Gomes. O acordo prevê que quatro das nove secretarias da nova gestão serão comandadas por indicações de Herik – que disputou contra João na eleição de 2012. A ideia era garantir único candidato no Município.

O amplo entendimento, no entanto, desagradou líderes do PHS no Município, que lançaram o ex-secretário de Infraestrutura de Meruoca, George Martins, como concorrente contra o “acordão”.

“Nós achamos que isso é tirar a democracia das mãos do povo”, afirmou o candidato derrotado. Já alguns apoiadores de Aristides dizem que a candidatura do PHS seria “protesto” do partido em Meruoca, que teria perdido espaço na gestão após aliança PT e PRB.

Festa da vitória
Participou da comemoração pela vitória, além de João Coutinho, o deputado federal Ilário Marques (PT) – que tem na região um de seus redutos eleitorais. Em seu discurso, Aristides destacou o prefeito cassado como “mentor” e “homem que revolucionou Meruoca”. Disse, no entanto, que Coutinho não terá cargo na gestão, pois atualmente é servidor da Secretaria da Fazenda do Estado (Sefaz).

Ele também negou “politicagem” nas indicações oferecidas para Herik Zednik. “Ela poderá indicar nosso secretário de Educação e outras pastas que serão definidas. Claro que ela vai fazer parte, ela colaborou e eu preciso de toda a ajuda possível”, disse.

O juiz responsável pela 106ª Zona Eleitoral, Rafael Lopes do Amaral, afirma que a união política dos opositores históricos, por si só, não pode ser considerada irregular. “Não se pode julgar antecipadamente, afirmar que a distribuição de secretarias é corrupção. Esses acordos podem às vezes simbolizar um pensamento político similar”, diz.

Candidato derrotado
candidato derrotado na eleição de ontem em Meruoca, George Martins (PHS), afirma que sofreu pressão do presidente estadual do PHS, deputado Tin Gomes, para abandonar a disputa. Segundo George, o deputado teria inclusive destituído a comissão do PHS de Meruoca, de acordo com ele, de forma irregular.

Nos bastidores da política local, líderes do PHS local demonstraram o interesse em migrar para o PR, sigla notabilizada por fazer oposição ao governador Cid Gomes (PSB).

Segundo o candidato, a destituição ocorreu fora do trâmite padrão, sem comunicado ou consulta. O comando do partido no Município teria, no entanto, revertido a decisão na Justiça. “Como estava completamente irregular, conseguimos rapidamente derrubar a ação e lançar legalmente a candidatura”, diz.

George Martins classificou como “atraso” a aliança firmada entre as grandes lideranças da região. Ele conta que sempre apoiou João Coutinho no Município, tendo inclusive ocupado a Secretaria da Infraestrutura em uma de suas gestões, mas se disse decepcionado com o gestor. “Eles foram todos juntos de jatinho para Fortaleza, para ajustar com o Cid. Isso é um atraso, a democracia só tem a perder”, diz.

O candidato PHS questiona ainda como ficará a distribuição de cargos comissionados na nova gestão, caso Herik Zednik (PRB) venha a ocupar quatro das nove secretarias municipais. “Hoje o pessoal que está nessas pastas já é o pessoal do Coutinho e do Aristides. Como vão encaixar esse pessoal novo todo?”, questiona, a respeito do acordo entre os petistas e a candidata derrotada na eleição passada.

Já o prefeito eleito não se mostrou preocupado com os questionamentos do opositor. Afirmou apenas que “vai unir forças” em prol de desenvolver o Município. “As escolas e a saúde precisam disso. E ninguém melhor do que o João para me ensinar”, disse.

O Povo

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