Milagres-CE: Começa a “moagem” da rapadura no engenho do Sítio Cajuí; 112 anos de tradição

“E começou a mais doce das tradições no Sítio Cajuí. A moenda canta vagarosamente o espremer da cana. O...

“E começou a mais doce das tradições no Sítio Cajuí. A moenda canta vagarosamente o espremer da cana. O fogo dá o ponto da rapadura. As mulheres cantam, puxando o sabor e aroma dos alfenins. Abelhas e pessoas festejam os 112 anos do engenho! Viva a nossa história”! – Relatou a Professora Eva Campos.

O Portal OKariri faz questão de reavivar ainda mais essa tradição por meio dessa homenagem. Vamos conhecer um pouco sobre esse doce e a história do engenho do Sítio Cajuí.

A origem

A chaminé do engenho | Foto Eva Campos

Famosa entre os nordestinos, a rapadura é, para muitos, a sobremesa preferida depois do almoço. Segundo relatos, a rapadura surgiu nas Ilhas Canárias em um arquipélago espanhol, no século XVl. Logo depois, no século XVll, foi exportada para as Américas. Chegando ao Brasil em 1532, de início servia de alimento para os escravos por possuir muitos nutrientes. Nesta época, ainda não era fabricada para fins comerciais, hoje, porém, é um dos doces mais consumidos no país, inclusive, sendo exportado para outros países.

Rapadura no Cariri

Em meados das décadas de 70 e 80 a cultura da “moagem” de rapadura era forte em toda região do Carriri, se tornando uma das principais culturas da região. Os grandes latifundiários, os chamados coronéis, destinavam grande parte das suas terras ao plantio de cana-de-açúcar que, por consequência, seriam transformados em rapaduras. Era comum na paisagem da região canavial vê homens no corte da cana, outros transportando a produção em lombos de jumentos ou burros, outros trabalhando nos engenhos ou, ainda, pessoas que iam aos engenhos para deliciarem a garapa de cana e comer a rapadura quentinha, feita na hora. Só quem viveu essa época sabe das boas recordações que vem a mente.

Em Milagres

A rapadura sendo enformada | Foto: Eva Campos

No município de Milagres a cultura também já esteve em dias melhores e, mesmo diante de todos os descasos, a tradição é mantida no engenho do Sítio Cajuí. O engenho é uma construção centenária que pertenceu à família Pereira, que no ano de 1958 vendeu a propriedade para a família Bezerra. Há 112 anos a comunidade participa ativamente da atividade da moagem, um processo de transformação da cana-de-açúcar em derivados como o mel e a rapadura, os mais conhecidos. O transcurso vai do corte da cana na roça até o “cacheamento”, o qual coloca a massa doce e consistente na gamela, estrutura a qual dá o formato final da rapadura.

Além da produção de mel de engenho, rapadura e batida (uma rapadura de consistência menos endurecida), há a produção de alfenins. O caldo apurado e fervido da cana na consistência de mel é trabalhado pelas “puxadoras de alfenim” (geralmente são as mulheres que fazem esta atividade), que usam uma técnica para aerar o mel endurecido e transformá-lo em doces solidificados, mas de consistência muito leve. As “puxadoras de alfenim” esperam o mel enrijecer sua consistência em uma pedra de cimento, a qual auxilia no processo de resfriamento. Dois puxadores esticam ou puxam a massa, daí vem o nome da tarefa, e a dobram repetidas vezes, aerando-a e enrijecendo-a nesse processo, até que alcance o ponto de formar, em pequenas porções enoveladas para secagem, chegando a um formato mais endurecido definitivamente.

Apesar da seca

Quando o engenho completou 100 anos de moagem recebeu uma faixa em comemoração | Foto: Eva Campos

Apesar dos cinco anos seguidos de seca, a família Bezerra tem mantido fielmente a tradição da moagem. No ano de 2005 toda a família reuniu-se e realizou uma grande reforma no prédio para que a cultura da produção e transformação da cana-de-açúcar não fosse abandonada. A rotina anual começa pela reunião da família, em que os interessados combinam a ordem de quem vai realizar o processo de moagem e definem o calendário. Os trabalhadores do processo: cortadores, cambiteiros, tombador, tronqueiro, picador, bagaceiro, botador de fogo na fornalha, caldeireiros e o mestre que dá o ponto do produto desejado para produzir rapadura ou batida, são contratados para trabalharem durante todo o processo, pois são atividades muito específicas. Seu Chico Camilo, mestre que trabalha atualmente, tem 85 anos.

Alfenim, um dos derivados da rapadura | Foto: Eva Campos

Nenhuma descrição se compara à sensação de participar pessoalmente desse processo tão tradicional. O cheiro da cana apurando deixa, em quem visita o engenho do Cajuí, uma sensação boa de infância e de história. Em função da baixa produção de cana, a moagem provavelmente só irá funcionar até o final da última semana de agosto e está aberta a visitação.

Com informações da Professora Eva Campos.

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