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Milagres (CE): Familiares dos reféns mortos em Tragédia cobram Justiça

Tentativa de assalto aos bancos do Brasil e Bradesco em Milagres
Tentativa de assalto aos bancos do Brasil e Bradesco em Milagres

MILAGRES | Tem coisas que vêm de repente:

– Mamãe, venha cá.

Era Joana chamando Antônia, que estava de joelhos na igreja, às 5h da manhã, em oração coletiva na vigília para Santa Edwirges. Se afasta um pouco até a sacristia.

– Diz, ‘Darc’

– Não, venha mais pra cá.

– Diz, ‘Darc’.

– Não, mãe?

Mãe sente:

– Minha filha, aconteceu um acidente com João Batista?

Sabia que o filho tinha viajado para Juazeiro, buscar Claudineide, Gustavo e Cícero.

– Foi.

– Oh, meu Deus! Foi velocidade, não foi?

– Não, mãe. Uns bandidos pegaram eles, disse, antes de concluir.

– CADÊ VINÍCIUS? E JOÃO BATISTA? E O PESSOAL QUE VEIO DE SÃO PAULO

– Também, mãe.

Porque “também” vira algum consolo para não repetir a palavra “morreu”.

“Acabou-se todo mundo”, concluiu Antônia. A mãe de João Batista sai gritando pelas ruas. “Meu filho. Meu neto. Todo mundo”.

Toda perda é trágica. Perder alguém numa tragédia é ser refém da surpresa. E a morte matada, não morrida, parece guardar em si uma dor ainda mais precoce. Antônia e Claudia (perderam filhos) tentam entender, mas principalmente esperam que lhe entendam. Cláudia perdeu o esposo, João Batista (filho de Antônia), e o filho mais velho, Vinícius. Sthefany, sua sobrinha, perdeu pai (Cícero), mãe (Claudineide) e o irmão (Gustavo).

A família de Serra Talhada, em Pernambuco, quer saber o que vai acontecer de agora em diante sobre o caso de Milagres. Porque com eles já aconteceu e é inesquecível.

“Tem dias que eu tô ótima, tem dias que tô arrasada”, diz Cláudia. No dia em que nos encontramos, em sua casa, estava “mais ou menos”. Era 8 de março, dia Internacional da Mulher, uma data sempre comemorada pelo casal desde que eram só namorados, há mais de 20 anos. De receber presentes e declarações do homem que só chamava “minha loira”. Nem precisava data, só pretexto. Foi assim mesmo no dia 6 de dezembro, quando João Batista estava certo de ir tarde da noite a Juazeiro buscar Cláudia, sua cunhada, com o marido Cícero e Gustavo, filho do casal.

– Minha loira, posso levar Vinícius comigo? Porque eu liguei pros meus amigos e ninguém tá atendendo

– Pode levar, filho, leve.

A essa altura, João Victor, 10 anos, irmão mais novo, queria ir.

– Não, você vai ficar, porque você vai cuidar de sua mãe.

O menino chorou, depois aceitou. Ainda brincou uma partida de dominó com o pai, a última antes de dormir. A última.

A despedida de casa, Claudia guarda, porque João fitou a esposa e beijou.

-Cê sabe que eu te amo muito?

– Sei. Eu também te amo muito, João.

Cláudia volta da porta e dá um outro abraço.

– João, sabia que eu te amo? Nunca esqueça disso.

– Eu sei.

E foi.

Já passava de três horas da madrugada, Cláudia liga, liga e nada, nada. Dormiu mal, mas amanheceu. Saindo do quarto, a campainha toca. Era Reginaldo, seu cunhado. Ele tinha ouvido falar das mortes, dos nomes, mas foi com um fio de esperança até a casa do irmão, ver se estava dormindo. Cláudia abre o portão, Reginaldo já olha para a garagem vazia e enche os olhos, abraça a cunhada como quem se segura.

– Ô, Cláudia, mataram o galego?

A outra pior notícia de sua vida veio já na delegacia de Brejo Santo. Vinícius não tinha levado documento, o delegado queria ter certeza e perguntou a ela alguma característica.

– É um loirinho de olho verde. E tá com tênis vermelho.

O delegado abaixa a cabeça e sai. Com menos de cinco minutos, vem uma moça e lhe anuncia a morte.

“Foi o pior momento, saber que um filho seu morreu, e da forma como foi”.

Essa “forma como foi” que a família queria esclarecimentos das forças de segurança do Ceará, até eles serem informados, pelos próprios meios, que investigadores afirmaram os tiros terem partido dos fuzis.

“A gente não quer punir ninguém, até porque a justiça divina vai tomar conta de tudo, mas a gente quer responsabilizar as pessoas que realmente têm que ser responsabilizadas”, afirma Daniel Magalhães, irmão de João Batista. Tenta ser uma peça forte na família já muito unida, e percebe que a tragédia não afetou somente a eles. “Os policiais são pais de família, sei que não estão lá para matar inocentes. Eu acredito na Justiça, acredito no laudo da Polícia, no sistema de inteligência, que é pra isso que serve, proteger o cidadão. Mas não houve proteção em nenhum momento à minha família lá. Não houve disparo de arma de bandido, que a gente sabe. A Polícia não diz, mas a gente sabe”.

okariri
Por hora, a família segue e espera esclarecimentos. Quando o inquérito for concluído, e a denúncia for apresentada formalmente, pretendem acionar a Justiça, para que o Estado do Ceará faça algum reparo aos que ficaram. A loja da família, Magalhães Informática, no centro de Serra Talhada, está fechada, e não há mais rendimentos dos negócios. Stheferson, advogado da família, diz estar confiante no trabalho dos investigadores.

João Vitor dá forças à mãe, Cláudia, que fortalece Sthefany, a sobrinha que ficou em São Paulo e perdeu pai, mãe e irmão. Quase diariamente, as duas compartilham no WhatsApp a insônia da madrugada:

– Tia, eu tô sem sono.

– Eu também, filha.

– Tia, parece que a gente tá passando por uma provação tão grande que um dia a gente vai ter recompensa, vai ter alguma maravilha na nossa vida. Olha, tia, tem horas que me dá um desespero. Dá vontade de eu ir aí pegar você e o João Vitor e a gente sumir no meio do mundo. Sem destino?

Fonte: Diário do Nordeste.

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