A pílula anticoncepcional chegou ao mercado no início da década de 60 e foi uma das principais responsáveis pela emancipação feminina. Ao longo dos anos, a ciência aprimorou o método contraceptivo oral, com redução drástica de efeitos colaterais e até resultados estéticos extremamente positivos para as mulheres – como diminuição de inchaço, menor impacto na libido e na oleosidade da pele, problemas causados pelas pílulas antigas. O avanço científico, contudo, veio acompanhado de algumas preocupações. Um recente estudo britânico, realizado por pesquisadores da Universidade de Nottingham, na Inglaterra, mostrou que o uso da pílula moderna está associado a um risco até quatro vezes maior de formação de coágulo sanguíneo grave, a trombose.”Todo método hormonal tem impacto na coagulação sanguínea, aumentando o risco de trombose. A comunidade científica sempre soube disso. O que mudou agora é que sabemos que a nova geração de pílulas aumenta ainda mais esse risco em função do tipo de hormônio utilizado”, explica Eduardo Zlotinik, ginecologista do hospital Albert Einstein, em São Paulo.
Surgidas nos anos 90, os anticoncepcionais mais recentes diferem dos antigos no tipo e na quantidade de hormônios utilizados. Em sua formulação, há a combinação de dois compostos: o estrogênio e a progesterona. Com isso, reduziu-se a dose hormonal e também o número de efeitos adversos. O que se revelou, no entanto, foi que os hormônios utilizados podem causar riscos em algumas mulheres. Segundo o levantamento britânico, o perigo é maior nas pílulas que tenham composição com drospirenona, o desogestrel, o gestodeno e a ciproterona.
A pesquisa atual traçou uma relação entre o uso de contraceptivos orais e os casos de trombose observados em mulheres com idades entre 15 e 49 anos. De acordo com os resultados, aquelas que tomaram as pílulas mais modernas – da terceira e quarta geração – corriam um risco duplicado em relação às mulheres que utilizavam as pílulas mais antigas. A comparação com quem nunca tomou a pílula mostrou uma probabilidade quatro vezes maior.
Sabe-se que o hormônio da pílula interfere no sistema circulatório da mulher de diversas formas. O composto aumenta a dilatação dos vasos, a viscosidade do sangue e, consequentemente, a coagulação. Com essas alterações, é possível que sejam formados coágulos nas veias profundas, localizadas no interior dos músculos. Em geral, os coágulos se formam nas pernas, mas podem se alojar nos pulmões, formando um bloqueio potencialmente fatal, ou ainda se mover para o cérebro, provocando um acidente vascular cerebral (AVC).
Apesar do novo estudo, os especialistas consultados pelo site de VEJA alertam: nem todas as pacientes estão em risco. Diz Julio Cesar de Oliveira, cirurgião vascular e presidente da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular do Rio de Janeiro: “Assim como qualquer medicamento, seu uso é seguro desde que ela seja bem indicada. Antes de prescrever o remédio, o ginecologista precisa analisar o histórico do paciente para ver se não existe alguma e contraindicação”. Mulheres que sofrem de enxaqueca, fumam e têm histórico de trombose na família, possuem um risco 20 vezes maior de ter um acidente vascular cerebral. Ou seja, no caso delas, nada de pílula moderna. Outros fatores também devem ser considerados: histórico de câncer de mama ou no fígado, presença de mutações genéticas que aumentam o risco de trombose, hipertensão e diabetes.
A anticoncepção tem a finalidade de impedir uma gravidez indesejada durante uma relação sexual. Por isso, a escolha do método contraceptivo deve ser individualizada e decidida pela paciente em conjunto com um ginecologista. Os métodos contraceptivos hormonais ainda são os mais utilizados no Brasil e podem ser encontrados em diferentes apresentações: oral, injetável, adesivo e implante – que agem impedindo a ovulação – ou o dispositivo intrauterino (DIU), com ação hormonal local. “Como a dosagem hormonal é baixa, este DIU pode ser utilizado por pacientes com alguma contraindicação para uso hormonal e até mesmo com trombofilia. Além disso, ao contrário da pílula e de outros métodos hormonais, o DIU de progesterona não é um método antiovulatório e, por isso não interfere, na libido”, explica Rita Dardes, ginecologista e professora da Universidade de São Paulo. Estima-se que 25% das brasileiras utilizem anticoncepcionais por via oral, enquanto 30% das mulheres em idade reprodutiva optam pela laqueadura.
Conheça os 15 métodos contraceptivos disponíveis
Tabelinha: Considerada um método comportamental, a tabelinha consiste em evitar o sexo desprotegido durante o período fértil – ou seja, entre o 10º e o 18º dia depois da menstruação. Para quem é indicado: Mulheres com ciclo menstrual regular, que não querem ou não podem utilizar outros métodos contraceptivos. Taxa de sucesso: Baixa. O método é considerado ineficaz porque nem sempre a ovulação é regular e acontece nos mesmos dias. O índice de falha é muito alto, entre 5% e 10%. Observações: Não protege contra doenças sexualmente transmissíveis (DSTs).
Coito interrompido: A técnica depende mais do homem do que da mulher e consiste em interromper a relação sexual antes da ejaculação, evitando a entrada do sêmen. Para quem é indicado: Mulheres que não querem ou não podem utilizar outros métodos contraceptivos Taxa de sucesso: Baixa. Pode ser ineficaz porque, em caso de descuido, uma pequena quantidade de esperma já é capaz de provocar uma gravidez indesejada. Observações: Não evita doenças sexualmente transmissíveis.
Preservativo (camisinha masculina ou feminina): Funciona como um método de barreira — evita a gravidez impedindo que o esperma chegue ao útero. Para quem é indicado: Para todas as pessoas. Pode ser utilizado sozinho ou em combinação com outros métodos, já que é o única barreira disponível atualmente contra doenças sexualmente transmissíveis. Taxa de sucesso: Se usado de forma correta, a taxa de sucesso do preservativo masculino é de 98%. O camisinha feminina protege em 95% dos casos. Observações: Em pessoas com alergia ao látex, o preservativo pode causar reações como inchaço, ardor, vermelhidão e coceira.
Diafragma: Consiste em uma membrana de silicone com um anel flexível em uma das extremidades. O diafragma deve ser inserido na vagina, tampando o colo do útero e impedindo a entrada dos espermatozoides. Para quem é indicado: Mulheres que não querem ou não podem utilizar outros métodos contraceptivos. Taxa de sucesso: Limitada, com um índice de falha de 10%. Observações: Para ser eficaz, o anel precisa ser inserido de 15 a 30 minutos antes da relação sexual — e retirado no máximo até 12 horas após o ato.
Espermicida: Método de barreira que tem como objetivo tirar a vitalidade do espermatozoide e, assim, impedir a fecundação. Para quem é indicado: Deve ser usado apenas como um complemento, já que sua eficácia é limitada para prevenir a gravidez. Taxa de sucesso: Baixa, com taxa de falha de até 26%. Observações: Não protege contra doenças sexualmente transmissíveis.
Dispositivo intrauterino de cobre (DIU): Método contraceptivo de barreira muito utilizado pois é de baixo custo e tem alta durabilidade. Capaz de permanecer no corpo entre 8 e 10 anos, precisa ser inserido e retirado do útero por um médico. O cobre possui ação espermicida e evita a gravidez. Para quem é indicado: Para mulheres que não querem ou não podem utilizar hormônios. Deve ser usado somente por aquelas que têm pouco fluxo menstrual e cólica. Taxa de sucesso: Se bem posicionado, o DIU pode apresentar entre 1,5% e 2% de ineficácia. Para garantir o posicionamento correto do dispositivo, a mulher deve fazer acompanhamento regular com o ginecologista. Observações: Não protege contra doenças sexualmente transmissíveis. Nos primeiros seis meses pode ser expelido voluntariamente pelo corpo. Também pode aumentar cólica, fluxo e duração do ciclo menstrual.
Pílula: Método hormonal que previne a gravidez ao impedir a ovulação. Atualmente, existe uma infinidade de pílulas no mercado, mas, basicamente elas podem ser de dois tipos: combinadas (progesterona e estrogênio) ou progestogênicas (somente progesterona). Para quem é indicado: No geral, podem ser usados por mulheres sem nenhuma contraindicação a hormônio, que buscam controle e redução do ciclo menstrual, diminuição da cólica e da tensão pré-menstrual (TPM). As pílulas de progesterona são as únicas que podem ser utilizadas por lactantes. Taxa de sucesso: Independente do tipo, se administrada corretamente, sua eficácia é de 99,7%. Observações: No geral, as pílulas causam diminuição da libido, aumento do risco de trombose e de câncer de mama, além de alteração na pressão arterial, triglicérides e nas taxas de açúcar no sangue. As pílulas combinadas contribuem para a redução da oleosidade da pele e para o controle da menstruação.
Adesivo: Adesivo hormonal que pode ser colocado no braço, na região lombar ou pubiana. O método libera quantidades constantes de hormônio que impedem a ovulação. Para quem é indicado: Mulheres que não se adaptaram a contraceptivos orais. Não deve ser usado por aquelas que frequentam a psicina ou a praia de forma constante — o hábito é capaz de reduzir a ‘cola’ do contraceptivo. Taxa de sucesso: Alta, com eficácia de 99,7%. Observações: Pode aumentar do risco de trombose e a proteção pode ser comprometida se o dispositivo se descolar da pele.
Implante: Implante subcutâneo inserido no braço da mulher. De longa duração, ele precisa ser aplicado e retirado no consultório a cada cinco anos. Para quem é indicado: Para pacientes que não tenham contraindicação hormonal e que desejam um método discreto e prolongado. Taxa de sucesso: Alta, com eficácia de 99,9%. Observações: Aumento do risco de trombose.
Anel vaginal: Anel de silicone que deve ser introduzido atrás do colo do útero no primeiro dia da menstruação e retirado após 21 dias. Não atrapalha a relação sexual e só sai se for retirado. Seu mecanismo de ação consiste na liberação constante de hormônios durante o período de uso. Para quem é indicado: Mulheres que esquecem a pílula com frequência ou que têm intolerância gástrica, Taxa de sucesso: Alta, com 99,9% de eficácia. Observações: Aumento do risco de trombose e de corrimento local.
DIU hormonal: Dispositivo intrauterino que impede a gravidez a partir da liberação de progesterona. Assim como o DIU de cobre, ele precisa ser inserido e retirado por um ginecologista, mas não é necessário um controle tão intenso no consultório médico. A durabilidade é de até cinco anos. Para quem é indicado: Mulheres com contraindicação para uso de hormônios e até mesmo para aquelas com propensão a desenvolver trombose. Além disso, pacientes com ciclo volumoso e longo, anêmicas ou com deficiência de ferro também são usuárias potenciais. Taxa de sucesso: Alta, com eficácia de 99,8%. Observações: Ao contrário de outros métodos hormonais , o DIU de progesterona não é um método que impede a ovulação e, por isso, não interfere na libido. Entre os efeitos adversos, estão a possibilidade de ser expelido voluntariamente pelo organismo nos primeiros meses e diminuição significativa do fluxo menstrual. Há também possibilidade de aumento da oleosidade da pele e de acne.
Injetável: Os anticoncepcionais injetáveis consistem em injeções hormonais mensais (formulação combinada de progesterona e estrogênio) ou trimestrais (progesterona). Para quem é indicado: Para mulheres que se esquecem de tomar a pílula e ainda que busquem praticidade e discrição. Taxa de sucesso: Alta, com proteção de 99,7% nas injeções trimestrais e 99,9% nas mensais. Observações: As injeções trimestrais, assim como as pílulas progestogênicas, apresentam menor risco de trombose e cessam a menstruação. Por outro lado, levam ao aumento de peso (entre três e quatro quilos). Já as injeções mensais têm os mesmos riscos das pílulas combinadas, além de irregularidade no ciclo menstrual. O lado positivo é que não causam alteração no peso.
Laqueadura: Considerado um método definitivo, a laqueadura é a esterilização feminina, caracterizada pelo corte das tubas uterinas, que ligam o ovário ao útero. É um procedimento cirúrgico. Para quem é indicado: Mulheres que não desejam mais ter filhos. Taxa de sucesso: Alta, de 100%. Observações: Em alguns casos, o método pode ser reversível a partir de uma microcirurgia.
Vasectomia: Procedimento cirúrgico que interrompe a circulação dos espermatozoides produzidos pelos testículos. Para quem é indicado: Para homens que não desejam mais ter filhos. Taxa de sucesso: Alta, de 100%. Observações: Pode ser reversível, mas para isso é necessário passar por uma microcirurgia e ainda há chance de insucesso.
Pílula do dia seguinte: É considerada um método de emergência, já que a dosagem hormonal é extremamente alta. Para quem é indicado: Mulheres que tiveram relação sexual desprotegida e querem um método urgente para evitar uma possível gravidez. Taxa de sucesso: Alta, se for ingerida em até 72 horas. Observações: Pode provocar náusea, vômito, diarreia, cólica, dor de cabeça e irregularidade no ciclo menstrual.





