CE: 1.171 pessoas esperam transplante

Para quem depende da doação de órgãos para levar uma vida normal ou precisa dela para sobreviver, a fila...

Para médico da Central de Transplantes do Ceará, gargalos logísticos na saúde pública acabam atrapalhando a efetivação de doações (Foto: Natinho Rodrigues/Diário do Nordeste)
Para médico da Central de Transplantes do Ceará, gargalos logísticos na saúde pública acabam atrapalhando a efetivação de doações (Foto: Natinho Rodrigues/Diário do Nordeste)
Para médico da Central de Transplantes do Ceará, gargalos logísticos na saúde pública acabam atrapalhando a efetivação de doações (Foto: Natinho Rodrigues/Diário do Nordeste)

Para quem depende da doação de órgãos para levar uma vida normal ou precisa dela para sobreviver, a fila parece interminável. É essa a realidade de 1.171 pessoas no Ceará, que dependem da solidariedade de famílias que acabaram de passar pelo trauma de perder um ente querido. Córnea é o órgão mais procurado, são 598 pessoas na fila, seguido de rim (417), fígado (135), coração (10), pulmão (7) e pâncreas/rim (4).

Em relação aos transplantes realizados no Estado, observa-se que, de 2010 a 2014, houve aumento de 60,43%. Foram 872 em 2010, saltando para 1.399 no ano passado. Porém, comparando 2014 com 2013, a redução é de 2,49%. Há registros de 1.399 no ano passado, enquanto, em 2013, havia sido 1.365.

Neste ano, a redução é ainda maior. De janeiro a junho, 638 procedimentos foram realizados, 11,26% a menos que igual período de 2014. Córnea, que teve maior número de cirurgias, apresentou redução de 8,16%.

De janeiro a março deste ano, foram notificados 140 potenciais doadores no Ceará, conforme a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO). Destes, apenas 20,4% são doadores efetivos. A recusa é de 41%, índice inferior à média nacional, de 43%. A maior parte dos doadores é do sexo masculino – 68,8%. Traumatismo Crânio Encefálico (TCE) e Acidente Vascular Cerebral (AVC) são as principais causas de morte dos doadores de órgãos no Ceará.

Daniel Gadelha, médico da Central de Transplantes do Ceará, afirma que não há resposta concreta em relação à redução de transplantes, só especulações. Uma delas, acrescenta, seria a diminuição dos índices de violência, que pode ter influenciado na quantidade de mortes.

Ontem, entretanto, no Hospital Geral de Fortaleza (HGF), segunda unidade que mais efetiva doações no Estado, atrás apenas do Instituto Doutor José Frota (IJF), a falta de um tomógrafo, que está quebrado há dois meses, impossibilitou a avaliação a causa do coma de um paciente, impedindo que fosse iniciado o protocolo de morte encefálica.

“Para abrir o protocolo, é preciso descobrir a causa do coma. Mas no HGF, que é um centro de tratamento de pacientes com AVC, o tomógrafo está quebrado há dois meses”, reforça. Apesar de deixar claro que não está dizendo que esta é a causa da redução de doações de órgãos, o médico salienta que existem gargalos na saúde de cunho logístico que atrapalham o diagnóstico de morte encefálica, impedindo que a doação seja efetivada.

A falta de medicação para evitar rejeição do órgão em alguns centros de transplantes, os chamados imunossupressores, é outra possível causa. O médico explica que quem decide se a doação vai ser feita é a família. Contudo, a rejeição ainda é alta.

Ele alerta que existem algumas divulgações de forma irresponsável de tráfico de órgãos nas redes sociais que também podem atrapalhar. “É criado um mito em cima disso. O potencial de captação é um processo sério, que não tem como burlar”, assegura. O médico reforça a importância de doar e diz que é uma forma de a pessoa abrir mão da perda do ente querido para oferecer chance a outras pessoas que estão precisando.

Em nota, a Secretaria Estadual da Saúde (Sesa), informou que o Governo do Estado adquiriu novo tomógrafo para o HGF, que deverá começar a funcionar até o fim de agosto, após a conclusão da obra de adaptação física do espaço, da instalação e testes do equipamento.

O texto acrescenta que o tomógrafo já existente está sendo avaliado por equipe da empresa fabricante, a Philips, que ainda não encontrou o defeito para providenciar o conserto. “Com essas providências, o HGF passará a contar com dois tomógrafos em funcionamento. Até lá, os exames são realizados no Hospital de Messejana Dr. Carlos Alberto Strudart”, diz a nota.

Doe de Coração

Realizada desde 2003 pela Fundação Edson Queiroz, a Campanha Doe de Coração vem levantando a bandeira em prol da doação de órgãos e tecidos. A iniciativa, que se tornou referência no País, inclusive com reconhecimento da ABTO, contribui para a doação voluntária no Ceará.

Tradicionalmente no mês de setembro, o movimento busca sensibilizar a sociedade através dos meios de comunicação com o objetivo de atingir diversos segmentos, em especial a rede de saúde pública e privada, além de grandes agentes.

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